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24.3.13

Copa 2014: fazendo pouco e a qualquer custo

Todos que me acompanham desde o começo do blog e desde quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa 2014, veem que tenho um ponto de vista positivo em sediar o evento - se soubermos aproveitar. No entanto, o Brasil tem feito muito pouco. Tudo é resumido aos estádios e pouco foi feito nos outros setores que uma copa do mundo incentiva a evoluir como, por exemplo, maior instrução de prestadores de serviço, transporte público mais eficiente e inovador, novos planos urbanos que aproveitam para resolver problemas de moradia e para desfazer barreiras, investimentos em segurança e conscientização, incentivar estudos para evoluir na questão de tecnologia, sustentabilidade e, claro, sem benefícios à saúde, sendo que muito mais poderia ser feito ou incentivado (através de iniciativa privada), em relação a novos hospitais. 

Muito pouco! 

Tivemos o que nessa preparação? Cursos do Pronatec para ajudar uma pequena parcela do público e cursos de idiomas, que, sinceramente, começou tarde demais em alguns estados para ter algum resultado até  julho deste ano ou 2014. 

Até aí, estamos 'só' perdendo oportunidades, deixando de usar o evento para trazer investimentos e desenvolver projetos engavetados, para sim, ficar na construção dos estádios. Estamos realizando o evento da pior maneira possível. Mas o pior é a política de fazer a qualquer custo.

Começou com a avenida em Itaquera (SP) que passa por uma comunidade e tirava a moradia de muitas pessoas, agora passamos pela questão do Museu do índio, com uma demolição para fazer estacionamento. Em Porto Alegre, até um comitê de defesa foi criado e que tenta conversar com o governo para evitar desapropriações. Além da atrocidade com os índios, mostrando que em todos esses anos nada foi aprendido, nada foi e será respeitado, ainda vemos que o motivo da desocupação é para valorizar novamente o carro, indo contra toda política mundial e negando todos os fatos que comprovam que, de fato, o rodoviarismo não é o caminho. 

Imagem: lancenet

Recomendo a leitura do texto sobre essa violência social escrito pela professora Fernanda Sánchez, da Universidade Federal Fluminense (UFF), publicado no site da Raquel Rolnik.

Em janeiro o Ministério Público Federal, com apoio do Crea e do IPHAN, tentou barrar a demolição. Leia mais.

Vale a pena? Nem se valesse. Precisamos aproveitar o evento, mas jamais passar por cima dos nossos deveres, da nossa honra, e respeitar todas as classes sociais, indiferente de cor, raça, credo ou status social. Mas, no Brasil, quem manda não é a ética.

23.5.12

Programa 'A Liga': Itaquerão

Um programa do qual gosto muito, 'A liga', da Band, mostrou nesta última terça (22) várias facetas da região de Itaquera voltando o foco principal para as interferências da construção do estádio Itaquerão, que será sede da Copa do Mundo 2014.

Entre informações importantíssimas sobre a desapropriação de barracos de algumas comunidades bem próximas ao estádio, salientaram a forma como a Prefeitura de São Paulo tenta passar por cima da dignidade e direitos humanos através de bolsa aluguel de míseros R$300,00. Contou com a participação da urbanista Raquel Rolnik que tem representado muito bem esta questão perante a ONU, buscando respeito e direitos aos cidadãos que podem ser afetados com a Copa - sem dúvida, a principal ideia do programa foi passada através dela. Vale também mencionar a importância da parte onde mostra o movimento do metrô. Felizmente nossos horários de jogo não são os de pico no metrô. No entanto, com a Copa, não acredito que a Zona Leste seja liberada do trabalho para poder aliviar o metrô, portanto, se coincidirem os horários, o metrô pode ficar mais tenso que o mostrado no vídeo, estendendo-se para muitas outras estações.

No entanto, várias distorções ao longo do programa, o fizeram cair na questão credibilidade. Quem assistiu o programa pode notar em vários momentos uma ideia de que o vilão é o Corinthians, como se o clube estivesse consumindo o dinheiro público. Mencionou-se até 500 milhões de investimento público, como se o estádio fosse fruto do gasto da prefeitura. O estádio é financiado, ou seja, o clube deverá, em parcelas e com juros, pagar cada centavo gasto na sua construção. O incentivo ficasl, por outro lado, pode, sim, ser questionado. Há a isenção de impostos, o que não é implementação de renda pública, mas a inexistência de arrecadação - e isso é mais comum do que se pode imaginar. Há inúmeras áreas onde a Prefeitura tem interesse em desenvolver. Para isso, a Prefeitura incentiva o investimento, livrando as empresas, construtoras, institutos, indústrias ou residências de IPTU, por exemplo, para que haja mais interesse das empresas privadas. Isso ocorre até entre estados: a Arisco saiu de São Paulo e foi para o nordeste pois tinha isenção de impostos, assim como muitas outras indústrias. Quem preserva patrimônio histórico, na minha cidade (Atibaia-SP), ganha isenção do IPTU proporcional à manutenção atual da edificação. Ou seja, é prática comum e legal da prefeitura em desenvolver áreas passíveis de intervenção. Desta forma, o poder privado livra o poder público (parcialmente) de alguns investimentos ou faz com que seja mais fácil investir em uma região.

O que mais pode ser questionado é o valor que a prefeitura vai investir em arquibancadas removíveis, que usará como artifício para conseguir a abertura do evento. Mas, para São Paulo conseguir a atenção gigantesca com a abertura da copa, a Prefeitura vai investir um valor (que realmente não sei se é o real informado no programa - 70 milhões) e que, sem dúvida, voltará em diversas formas para a população (comerciantes, para o transporte, hotéis, etc.) e que, conseguiria em menor número se tivesse jogos, mas sem a abertura. Novamente, é o mínimo que a prefeitura pode fazer, buscar o melhor retorno para a cidade, ou alguém consegue ver alguma forma da prefeitura lucrar ao fazer arquibancadas desmontáveis?

Além disso, há uma incoerência entre o tom falado no programa (parte 4 aos 3:43) e o infográfico abaixo (que consta no site do programa). No vídeo pareciam 500 milhões absurdos investidos e nenhum centavo para ajudar a população, já na imagem abaixo, 'o lado bom'.

*Imagem do site do programa 'A liga' de 22/05/2012

Além disso, investimentos em transporte público, em facilidades viárias, iluminação pública, segurança, sinalização é um investimento para muita gente, ou seja, para a população, principalmente para frequentadores e habitantes da zona leste em geral, não só de Itaquera. 
*Lembrando que em momento algum acho correto usar isso como desculpa para o despejo de família.


E ainda saliento que é um caso completamente diferente ao de Cuiabá, onde, neste último, as arquibancadas serão removíveis porque querem um estádio mínimo depois da copa, como se ela nunca tivesse passado por lá. São casos diferentes e motivos diferentes para serem removíveis.

Quem vai sofrer com a Copa são os que sofrerão com a desapropriação de suas casas ou barracos, mas todo o resto da população reconhece o quanto Itaquera evoluirá com o evento. Agora, colocar a Sophia Reis (parte 5 do programa), com seu ar de rebelde de elite e petulância, ironizando funcionários públicos, interrompendo a explicação de outro para cantar parabéns é, no mínimo, uma falta de respeito. Não é porque a população é tratada como palhaça, que deve-se fazer circo nas ocasiões de reivindicação - que foi o que ela fomentou com primor no programa. Educação pode funcionar. 

Quanto à Prefeitura, esta deveria, no mínimo, ter feito uma reunião de apresentação do projeto com os possíveis moradores que deverão ser afetados pela avenida nova, debatido e com propostas razoáveis com moradias próximas e de qualidade para estas famílias.

Este post foi escrito por ver que muita gente se deixou influenciar por um tom parcial e, em certos pontos, ignorante durante um programa que deveria ter investigado dados e tomado mais cuidados com sua postura e palavras. Os vídeos podem ser vistos no site do programa.


Textos que podem interessar relacionados ao assunto:

Habitação x Copa do Mundo e Olimpíadas - sobre o posicionamento da Raquel Rolnik nesta causa
Valores das arquibancadas desmontáveis segundo o portal da copa 2014, clique aqui.
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