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11.11.11

Canindé e sua arquitetura

O Canindé era o único estádio de São Paulo que até mês passado não havia visitado. No entanto, ele foi o primeiro estádio que vi na minha vida, afinal, ele sempre foi parte da minha paisagem no trajeto diário Atibaia-São Paulo, no início da faculdade. Sempre quis conhecer direito e ele sempre foi um marco pra mim na marginal. Tanto como referência pela arquitetura, quanto por localização. É por este motivo e pelo título de campeão da série B, que conseguiram na terça passada (08-09-11) e retorno para a Série A do futebol brasileiro que analiso o estádio desse time histórico.

Estádio Doutor Osvaldo Teixeira Duarte

Após ser chamada de Ilha da madeira pelas estruturas de madeira de suas arquibancadas, passar pelas mãos do São Paulo e enfim chegar às mãos da Portuguesa (que se formou da união de cinco times lusitanos), o estádio do Canindé recebeu projeto de Vilanova Artigas (autor do Morumbi e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e de Hoover Américo Sampaio, que foi quem teve o projeto escolhido e é o que podemos ver hoje. A partir da década de 50, a arquitetura paulista começou a empregar muito o concreto armado. Com o tempo começou uma tendência brutalista, que consistia, resumidamente, em uma arquitetura bruta, crua. Com estruturas simples, expostas (vigas, pilares, calhas) em concreto aparente e geralmente pesadas, o brutalismo abrangia várias linguagem, mas geralmente com formas bem nítidas, lisas e pesadas. Imagino eu, que esta possa ser considerada uma arquitetura brutalista, no entanto, não consegui confirmar isso, infelizmente.

Segundo Ruth Verde Zein em sua tese de doutorado disponível online, afirma que são poucas as fontes fidedignas sobre o brutalismo, sendo este, mal-compreendido.

Ruth Verde Zein ainda menciona como o brutalismo foi inserido nos equipamentos esportivos:


"...equipamentos projetadospara um grande público, com solicitações limite em termos de resistência e flexibilidade estrutural, destinada a uma frequência de uso, cada vez maior, por camadas populares - o que induzia poder prescindir-se  ou simplificar-se os tradicionais cuidados de acabamento habitualmente empregados quando os espaços dessa natureza eram destinados às elites (caso, por exemplo, das tribunas do Jóquei Clube de São Paulo, construídas na década anterior, acabadas com materiais nobres e realizadas em estilo clássico simplificado)."
Ruth Verde Zein, em "A arquitetura da escola paulista brutalista - 1953 - 1973" de Setembro de 2005.

Hoje, o estádio da portuguesa está desatualizado em relação às normas de segurança e capacidade também, entre muitos outros fatores. Com a escolha do Brasil para a Copa de 2014, fomentou-se muito a idéia de que o Canindé tem uma posição privilegiada para o evento e cogitou-se uma reforma drástica. De fato a proximidade à maior rodoviária da América Latina (rodoviária do Tietê) e do aeroporto internacional de guarulhos (Cumbica) é fator interessante para um evento deste porte. No entanto, o Canindé tem problemas similares aos do Morumbi, o entorno. Se aumentarmos muito a capacidade do Canindé, a segurança fica ainda mais problemática e o trânsito pior ainda. No jogo em que fui dia 28 de outubro,  Lusa x Ponte Preta, notei o drástico problema viário em torno do estádio e ele nem estava lotado - com um ótimo público pelo sucesso da apelidada Barcelusa e por ser Série B do campeonato, mas ainda pequeno.

Atualmente a arquibancada (assentos - degraus) teriam que ser completamente remodelados, principalmente ao se tratar de acessibilidade e segurança. É exigido, hoje, que haja cadeiras numeradas, assentos e rampas para deficientes, distâncias máximas para evacuação do local e em todos os quesitos o estádio peca. Claro que por conta de novas exigências, desde a expanção do futebol ele exige novos comportamentos de público e de espaço então é natural ter que se adaptar com o tempo.

Abaixo algumas fotos que tirei nesse jogo em que estive presente (a qualidade da câmera do celular é ruim, infelizmente, mas podemos notar os detalhes da arquibancada.
 Acima, os degraus das arquibancadas sem o anel superior descobertas) - até mesmo um vendedor  acostumado aos degraus, caiu neste dia. Abaixo, podemos ver como as placas de publicidade tiram a visibilidade da lateral do campo e como os 15 primeiros degraus da arquibancadas são cegos.

 Acima, os refletores que marcam de longe o estádio na Marginal Tietê (foto de Thiago Salata, retirada da internet); Abaixo, uma foto da festa da portuguesa ao lado do estádio, podendo ver um pouco da estrutura do anel superior;


Por fim, a imagem que me marcou bastante; o estádio Canindé visto do outro lado da Marginal, em frente à rodoviária do Tietê.

Na minha opinião, o estádio deveria sim ser reformado, por segurança do público e qualidade do estádio, mas focando o brasileirão e regionais, como o paulista e possíveis outros eventos. Numa reforma, seria muito provável mudar a cobertura e ampliá-la. No entanto, acredito que a estrutura em si, do estádio deva ser preservada - no sentido de mantê-la exposta e não cobrir com algum vedamento lateral. 

Recentemente também vi, por acaso, que alguns colegas de faculdade e de workshop, fizeram, juntos, uma proposta para a Portuguesa. Acesse o link do escritório Arkiz para ver o projeto aqui. Abaixo uma prévia do projeto que eles divulgaram no site:


Soube que já foi feita uma entrevista pela São Paulo Antiga, com o arquiteto Hoover Américo Sampaio, responsável pelo Canindé de hoje, e estou pedindo que eles coloquem no ar novamente. Caso seja possível, postarei aqui.

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